Revista OCA on-line # Dezembro de 2005
Crescimento da ocupação do solo gera altas
temperaturas e alagamentos em Porto Alegre
Grandes áreas impermeabilizadas alteram o microclima da capital
e são causa de problemas nos dias de chuva fortes
Leonardo Mazzarolo

Esses problemas podem estar sendo causados pelo modelo de urbanização do município, ou melhor, pelo desenvolvimento acelerado da cidade sem uma gestão ambiental efetiva. Com o crescimento do número de construções e a substituição do paralelepípedo pelo asfalto, a capital está se tornando impermeável. A água da chuva não consegue chegar ao solo, o que provoca uma elevação do número de alagamentos.
A urbanização altera o ciclo hidrológico – no qual a chuva vai para o rio e depois evapora para precipitar novamente –, fazendo com que o escoamento da água nas ruas seja muito maior, na ordem de seis a sete vezes em relação a um terreno de área verde, que consegue absorvê-la. Segundo Carlos Tucci, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, os países desenvolvidos têm ações que influenciam na fonte do problema em termos de drenagem da chuva. Em Porto Alegre, bem como nas cidades de países subdesenvolvidos, entretanto, a situação é diferente. Para o especialista, as pessoas aprenderam a fazer a urbanização “de forma errada”.
A principal causa das inundações é o de não haver espaços de terra para absorção da água, devido ao excesso de concreto na cidade. “As casas não têm mais jardins, não há um recuo por onde a água da chuva possa ser drenada. Então, a chuva fica em uma pista de rolamento, só é levada pelas ruas, não se fixa em nenhum momento no solo”, explica a ambientalista Edi Fonseca, da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural - Agapan, com sede na capital.

Microclimas
O crescimento da cidade de Porto Alegre e o aumento da impermeabilização provocam ainda o efeito chamado de ilhas de calor. Esse fenômeno é caracterizado pelo aumento da temperatura em determinadas regiões, de forma isolada, principalmente nas áreas de maior conglomeração de pessoas, como o Centro do município ou locais de grande concentração de indústrias. As ilhas são ocasionadas pela elevação da absorção do calor por superfícies urbanas, como o asfalto, o concreto, as telhas de barro, e pela falta de lugares cobertos por vegetação, como praças. O calçamento e, logo, o desvio da água por bueiros, reduzindo o processo de evaporação, também provocam este fenômeno.
O professor Tucci explica que “a impermeabilização é a principal responsável pelas ilhas de calor, porque ela gera um aquecimento [nos asfaltos, por exemplo], já que são superfícies duras, e, então, há uma maior absorção do calor. Logo, há um aumento do efeito estufa local”. Este é provocado pelo acúmulo de prédios e construções, que interfere na circulação dos ventos, agravando a poluição e, conseqüentemente, causando maior aquecimento na atmosfera. De acordo com o especialista, a diferença entre a temperatura do centro das grandes cidades e a da periferia pode chegar a 5ºC. “Mas Porto Alegre se diferencia um pouco, pois tem um lago na lateral que traz ventos.”
A impermeabilização acaba ainda alterando os microclimas da cidade. “Com o excesso de asfalto e a diminuição da arborização – a substituição de áreas verdes por grandes prédios –, há uma modificação, além da paisagem, do clima do local”, afirma a ambientalista da Agapam. Os microclimas são outro efeito que ocorre em Porto Alegre, responsáveis pela diferença de clima entre as diversas regiões da cidade.

Poluição
Além dos constantes alagamentos, que prejudicam a qualidade de vida da população, o escoamento da chuva pelas ruas também acaba poluindo o Guaíba. A água arrasta resíduos e fuligem depositados sobre a superfície, levando-os diretamente para o lago. “O Guaíba não tem condições de absorver esse volume de lixo, o que gera poluição. E isso afeta a qualidade da água”, esclarece Edi Fonseca.
Os fenômenos das áreas de maior número de edifícios, por exemplo, são caracterizados por maior quantidade de chuva fortes, provocando alagamentos. “Há variações muito grandes nas chuvas de intensidade máxima”, revela Tucci. Com o crescimento do número de chuvas fortes, o problema todo se agrava, já que a quantidade de água a ser absorvida pelo solo é maior. E como o concreto de Porto Alegre não permite que a água chegue devidamente à terra, provocam-se alagamentos. Vira, assim, um ciclo urbano que se complica cada vez mais.

Contenções
A solução para as inundações na capital, segundo o diretor-geral do Departamento de Esgotos Pluviais – DEP, de Porto Alegre, Ernesto Teixeira, são as bacias de contenção. Essas retenções são uma espécie de local onde a chuva seria armazenada antes de escoar para as áreas que, normalmente, têm maior histórico de alagamento. Dessa forma, elas iriam liberando a água gradualmente, garantindo um escoamento sem enxurradas. “Elas podem ser um pedaço de praça, um terreno vazio”, ressalta Tucci. As bacias funcionam como uma espécie de lago perene, que só enche quando há chuvas de maior intensidade.
Em Porto Alegre, há nove contenções, porém a meta, conforme Teixeira, é alcançar as 27 microbacias existentes na cidade. As microbacias são os arroios para onde a água da chuva se desloca no primeiro momento, ocasionando os alagamentos. No entanto, os moradores nem sempre são a favor das contenções, por achar que prejudica sua qualidade de vida. “A população é contra as retenções, porque ela tem medo que a prefeitura não faça a limpeza delas”, analisa Tucci. “As pessoas preferem que vá tudo [o lixo levado pelas águas da chuva] para o lago do que fique perto de suas casas. O certo é que não fosse nem para o lago nem para perto das pessoas, e sim que fosse recolhido e disposto adequadamente.”
O DEP informa que há, realmente, uma dificuldade na limpeza das retenções, e isso é perceptível ao vermos a quantidade de vezes em que o serviço foi feito. A bacia de contenção localizada no parque Marinha do Brasil é uma das únicas que são limpas periodicamente, mas com uma margem de três vezes ao ano. O ideal é que a limpeza fosse feita a cada chuva de grande intensidade, já que o lixo se acumula nas retenções. Para Tucci, a prefeitura deveria, além de se encarregar da limpeza, ter projetos que incorporassem essas contenções ao paisagismo da cidade, “porque se for um simples buraco no meio de um lugar, ela não está integrada à paisagem”.

Plano Diretor
Para o arquiteto Hermes Puricelli, da Secretaria de Planejamento Municipal, o problema está no Plano Diretor da cidade. A norma prevê que as construções devem ter apenas uma percentagem do terreno ocupada, deixando a outra livre, porém não diz que esta área desocupada deve ser permeável, para que a água chegue ao solo. “Não adianta ser livre, para fins de drenagem, se ele [terreno] é todo pavimentado, se não há nenhuma forma de escoar, de absorver as águas pluviais.”
A ambientalista Edi Fonseca argumenta que com o novo Plano Diretor da capital, foi possibilitada a urbanização e a construção em áreas que antes eram verdes. “Por isso, já estamos vivendo na cidade uma mudança climática, em função da flexibilização da construção em locais inadequados”, observa a integrante da Agapan. Para ela, uma outra solução seria fazer um recuo de 30 centímetros nas laterais das ruas, que serviria como um local de absorção da chuva, para que ela chegue mais facilmente à terra.
A arborização do município, segundo a ambientalista, também seria uma forma de diminuir os efeitos, porque ajudaria a fixar a água da chuva antes de ela escoar para as microbacias, causando alagamentos. “A cidade precisa crescer, obviamente, mas a gente tem de compatibilizar a habitação com a área verde.”

 


UNIVERDIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL - FABICO
Projeto desenvolvido pelos alunos de Jornalismo Ambiental da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação

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