Esses problemas podem estar sendo causados
pelo modelo de urbanização do município,
ou melhor, pelo desenvolvimento acelerado da cidade sem
uma gestão ambiental efetiva. Com o crescimento
do número de construções e a substituição
do paralelepípedo pelo asfalto, a capital está
se tornando impermeável. A água da chuva
não consegue chegar ao solo, o que provoca uma
elevação do número de alagamentos.
A urbanização altera o ciclo hidrológico
– no qual a chuva vai para o rio e depois evapora
para precipitar novamente –, fazendo com que o escoamento
da água nas ruas seja muito maior, na ordem de
seis a sete vezes em relação a um terreno
de área verde, que consegue absorvê-la. Segundo
Carlos Tucci, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas,
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS,
os países desenvolvidos têm ações
que influenciam na fonte do problema em termos de drenagem
da chuva. Em Porto Alegre, bem como nas cidades de países
subdesenvolvidos, entretanto, a situação
é diferente. Para o especialista, as pessoas aprenderam
a fazer a urbanização “de forma errada”.
A principal causa das inundações é
o de não haver espaços de terra para absorção
da água, devido ao excesso de concreto na cidade.
“As casas não têm mais jardins, não
há um recuo por onde a água da chuva possa
ser drenada. Então, a chuva fica em uma pista de
rolamento, só é levada pelas ruas, não
se fixa em nenhum momento no solo”, explica a ambientalista
Edi Fonseca, da Associação Gaúcha
de Proteção ao Ambiente Natural - Agapan,
com sede na capital.
Microclimas
O crescimento da cidade de Porto Alegre e o aumento da
impermeabilização provocam ainda o efeito
chamado de ilhas de calor. Esse fenômeno é
caracterizado pelo aumento da temperatura em determinadas
regiões, de forma isolada, principalmente nas áreas
de maior conglomeração de pessoas, como
o Centro do município ou locais de grande concentração
de indústrias. As ilhas são ocasionadas
pela elevação da absorção
do calor por superfícies urbanas, como o asfalto,
o concreto, as telhas de barro, e pela falta de lugares
cobertos por vegetação, como praças.
O calçamento e, logo, o desvio da água por
bueiros, reduzindo o processo de evaporação,
também provocam este fenômeno.
O professor Tucci explica que “a impermeabilização
é a principal responsável pelas ilhas de
calor, porque ela gera um aquecimento [nos asfaltos, por
exemplo], já que são superfícies
duras, e, então, há uma maior absorção
do calor. Logo, há um aumento do efeito estufa
local”. Este é provocado pelo acúmulo
de prédios e construções, que interfere
na circulação dos ventos, agravando a poluição
e, conseqüentemente, causando maior aquecimento na
atmosfera. De acordo com o especialista, a diferença
entre a temperatura do centro das grandes cidades e a
da periferia pode chegar a 5ºC. “Mas Porto
Alegre se diferencia um pouco, pois tem um lago na lateral
que traz ventos.”
A impermeabilização acaba ainda alterando
os microclimas da cidade. “Com o excesso de asfalto
e a diminuição da arborização
– a substituição de áreas verdes
por grandes prédios –, há uma modificação,
além da paisagem, do clima do local”, afirma
a ambientalista da Agapam. Os microclimas são outro
efeito que ocorre em Porto Alegre, responsáveis
pela diferença de clima entre as diversas regiões
da cidade.
Poluição
Além dos constantes alagamentos, que prejudicam
a qualidade de vida da população, o escoamento
da chuva pelas ruas também acaba poluindo o Guaíba.
A água arrasta resíduos e fuligem depositados
sobre a superfície, levando-os diretamente para
o lago. “O Guaíba não tem condições
de absorver esse volume de lixo, o que gera poluição.
E isso afeta a qualidade da água”, esclarece
Edi Fonseca.
Os fenômenos das áreas de maior número
de edifícios, por exemplo, são caracterizados
por maior quantidade de chuva fortes, provocando alagamentos.
“Há variações muito grandes
nas chuvas de intensidade máxima”, revela
Tucci. Com o crescimento do número de chuvas fortes,
o problema todo se agrava, já que a quantidade
de água a ser absorvida pelo solo é maior.
E como o concreto de Porto Alegre não permite que
a água chegue devidamente à terra, provocam-se
alagamentos. Vira, assim, um ciclo urbano que se complica
cada vez mais.
Contenções
A solução para as inundações
na capital, segundo o diretor-geral do Departamento de
Esgotos Pluviais – DEP, de Porto Alegre, Ernesto
Teixeira, são as bacias de contenção.
Essas retenções são uma espécie
de local onde a chuva seria armazenada antes de escoar
para as áreas que, normalmente, têm maior
histórico de alagamento. Dessa forma, elas iriam
liberando a água gradualmente, garantindo um escoamento
sem enxurradas. “Elas podem ser um pedaço
de praça, um terreno vazio”, ressalta Tucci.
As bacias funcionam como uma espécie de lago perene,
que só enche quando há chuvas de maior intensidade.
Em Porto Alegre, há nove contenções,
porém a meta, conforme Teixeira, é alcançar
as 27 microbacias existentes na cidade. As microbacias
são os arroios para onde a água da chuva
se desloca no primeiro momento, ocasionando os alagamentos.
No entanto, os moradores nem sempre são a favor
das contenções, por achar que prejudica
sua qualidade de vida. “A população
é contra as retenções, porque ela
tem medo que a prefeitura não faça a limpeza
delas”, analisa Tucci. “As pessoas preferem
que vá tudo [o lixo levado pelas águas da
chuva] para o lago do que fique perto de suas casas. O
certo é que não fosse nem para o lago nem
para perto das pessoas, e sim que fosse recolhido e disposto
adequadamente.”
O DEP informa que há, realmente, uma dificuldade
na limpeza das retenções, e isso é
perceptível ao vermos a quantidade de vezes em
que o serviço foi feito. A bacia de contenção
localizada no parque Marinha do Brasil é uma das
únicas que são limpas periodicamente, mas
com uma margem de três vezes ao ano. O ideal é
que a limpeza fosse feita a cada chuva de grande intensidade,
já que o lixo se acumula nas retenções.
Para Tucci, a prefeitura deveria, além de se encarregar
da limpeza, ter projetos que incorporassem essas contenções
ao paisagismo da cidade, “porque se for um simples
buraco no meio de um lugar, ela não está
integrada à paisagem”.
Plano Diretor
Para o arquiteto Hermes Puricelli, da Secretaria de Planejamento
Municipal, o problema está no Plano Diretor da
cidade. A norma prevê que as construções
devem ter apenas uma percentagem do terreno ocupada, deixando
a outra livre, porém não diz que esta área
desocupada deve ser permeável, para que a água
chegue ao solo. “Não adianta ser livre, para
fins de drenagem, se ele [terreno] é todo pavimentado,
se não há nenhuma forma de escoar, de absorver
as águas pluviais.”
A ambientalista Edi Fonseca argumenta que com o novo Plano
Diretor da capital, foi possibilitada a urbanização
e a construção em áreas que antes
eram verdes. “Por isso, já estamos vivendo
na cidade uma mudança climática, em função
da flexibilização da construção
em locais inadequados”, observa a integrante da
Agapan. Para ela, uma outra solução seria
fazer um recuo de 30 centímetros nas laterais das
ruas, que serviria como um local de absorção
da chuva, para que ela chegue mais facilmente à
terra.
A arborização do município, segundo
a ambientalista, também seria uma forma de diminuir
os efeitos, porque ajudaria a fixar a água da chuva
antes de ela escoar para as microbacias, causando alagamentos.
“A cidade precisa crescer, obviamente, mas a gente
tem de compatibilizar a habitação com a
área verde.”
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