Revista OCA on-line # Dezembro de 2005
Poluição altera condução das águas nas metrópoles
Um temporal no início de novembro de 2005 trouxe prejuízos à capital gaúcha e também revelou como culpados o acúmulo de lixo e dejetos na via pública
Luiz Ricardo Linch

De forma geral, o crescimento urbano nos países em desenvolvimento tem sido feito de forma insustentável, com conseqüente deterioração da qualidade de vida e do meio-ambiente. A América Latina tem especial significância nesse quesito, visto que 77% de sua população vive em áreas urbanas, em comparação com o nível mundial de 48%. O crescimento das cidades, intensificado a partir da década de 70, tem acontecido sem um planejamento adequado. A cidade de Porto Alegre está incluída nesse grupo.O alagamento registrado em Porto Alegre no dia 4 de novembro deste ano também dá indícios de um problema menos visível: a poluição da água através de agentes encontrados nas próprias ruas da capital gaúcha.
Atuar preventivamente no desenvolvimento urbano é a melhor forma para reduzir os custos com soluções para os problemas relacionados à água. O professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, Carlos Tucci, defende uma perspectiva que integre os diversos aspectos da gestão da água. O fator principal – ocupação do solo – deve ser relacionado com os componentes dos mananciais, o esgotamento sanitário, os resíduos sólidos, a drenagem urbana e a inundação ribeirinha. Para o professor, cada questão deve ser avaliada pensando em como afeta as outras, procurando estabelecer um equilíbrio entre elas.
O ciclo da água é afetado nas metrópoles porque, além da impermeabilização e construção de canalizações, a poluição do ar compromete a própria qualidade da chuva. A precipitação vem carregada por resíduos poluentes presentes no solo, uma vez que a água que corre para os rios, arrasta junto os detritos sólidos deixados na rua, lixo e, também, partículas de metais pesados e produtos químicos. O líquido que chega nas torneiras de nossas casas vem do mesmo lugar onde vão parar todos esses agentes contaminadores: o lago Guaíba.
O despejo de boa parte do esgoto urbano in natura também contribui para a deterioração na qualidade da água potável e compromete a quantidade. Em Porto Alegre, apenas 20% dos rejeitos recebe tratamento. A situação repete o quadro que dos mananciais próximos às grandes cidades, em geral, não podem ser mais utilizados, pois foi excedida a sua capacidade de diluição dos poluentes. São Paulo sofre todos os anos períodos de racionamento e há a tendência dessa situação piorar. Em Porto Alegre, o gosto da água denuncia a má qualidade. Em ruas que alagam quando chove forte, como a Oswaldo Aranha, é sentido pela população o odor característico de esgoto na água que encobre as ruas.

Visão integrada
Durante o período em que atuou como coordenador do projeto de pesquisa e tratamento das bacias hidrológicas de Porto Alegre, Tucci propôs um sistema que seguia a perspectiva integrada. A criação da bacia de detentores transformaria as praças das áreas responsáveis pelas inundações urbanas em núcleos de retenção do excesso de água. Os detentores receberiam junto com o excedente da precipitação os poluentes e detritos arrastados pela chuva, evitando que contaminassem canais de drenagem. Posteriormente a prefeitura faria a limpeza e o tratamento da água retida pelos detentores. O projeto, porém, ficou apenas no papel.
A Prefeitura Municipal admite que faltam recursos para a limpeza dos detentores. E, mesmo nos lugares onde essa medida é cumprida, como no Arroio Dilúvio, o trabalho das equipes parece não dar conta do ritmo constante da poluição urbana. O impacto sobre a qualidade da água que será conduzida ao rio Guaíba não parece ser motivo de preocupação para o poder público. O que não é visto pelas pessoas, pois corre no subterrâneo, parece igualmente não ser sentido, pelo menos não em curto prazo. Os prejuízos com o meio-ambiente, pelos motivos já descritos, são um problema preterido, visto que nem mesmo a coleta e tratamento de esgoto possuem cobertura adequada. Quando falta o básico, é difícil exigir medidas mais avançadas.

 


UNIVERDIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL - FABICO
Projeto desenvolvido pelos alunos de Jornalismo Ambiental da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação

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