De forma geral, o crescimento urbano nos
países em desenvolvimento tem sido feito de forma
insustentável, com conseqüente deterioração
da qualidade de vida e do meio-ambiente. A América
Latina tem especial significância nesse quesito,
visto que 77% de sua população vive em áreas
urbanas, em comparação com o nível
mundial de 48%. O crescimento das cidades, intensificado
a partir da década de 70, tem acontecido sem um
planejamento adequado. A cidade de Porto Alegre está
incluída nesse grupo.O alagamento registrado em
Porto Alegre no dia 4 de novembro deste ano também
dá indícios de um problema menos visível:
a poluição da água através
de agentes encontrados nas próprias ruas da capital
gaúcha.
Atuar preventivamente no desenvolvimento urbano é
a melhor forma para reduzir os custos com soluções
para os problemas relacionados à água. O
professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas
da UFRGS, Carlos Tucci, defende uma perspectiva que integre
os diversos aspectos da gestão da água.
O fator principal – ocupação do solo
– deve ser relacionado com os componentes dos mananciais,
o esgotamento sanitário, os resíduos sólidos,
a drenagem urbana e a inundação ribeirinha.
Para o professor, cada questão deve ser avaliada
pensando em como afeta as outras, procurando estabelecer
um equilíbrio entre elas.
O ciclo da água é afetado nas metrópoles
porque, além da impermeabilização
e construção de canalizações,
a poluição do ar compromete a própria
qualidade da chuva. A precipitação vem carregada
por resíduos poluentes presentes no solo, uma vez
que a água que corre para os rios, arrasta junto
os detritos sólidos deixados na rua, lixo e, também,
partículas de metais pesados e produtos químicos.
O líquido que chega nas torneiras de nossas casas
vem do mesmo lugar onde vão parar todos esses agentes
contaminadores: o lago Guaíba.
O despejo de boa parte do esgoto urbano in natura também
contribui para a deterioração na qualidade
da água potável e compromete a quantidade.
Em Porto Alegre, apenas 20% dos rejeitos recebe tratamento.
A situação repete o quadro que dos mananciais
próximos às grandes cidades, em geral, não
podem ser mais utilizados, pois foi excedida a sua capacidade
de diluição dos poluentes. São Paulo
sofre todos os anos períodos de racionamento e
há a tendência dessa situação
piorar. Em Porto Alegre, o gosto da água denuncia
a má qualidade. Em ruas que alagam quando chove
forte, como a Oswaldo Aranha, é sentido pela população
o odor característico de esgoto na água
que encobre as ruas.
Visão integrada
Durante o período em que atuou como coordenador
do projeto de pesquisa e tratamento das bacias hidrológicas
de Porto Alegre, Tucci propôs um sistema que seguia
a perspectiva integrada. A criação da bacia
de detentores transformaria as praças das áreas
responsáveis pelas inundações urbanas
em núcleos de retenção do excesso
de água. Os detentores receberiam junto com o excedente
da precipitação os poluentes e detritos
arrastados pela chuva, evitando que contaminassem canais
de drenagem. Posteriormente a prefeitura faria a limpeza
e o tratamento da água retida pelos detentores.
O projeto, porém, ficou apenas no papel.
A Prefeitura Municipal admite que faltam recursos para
a limpeza dos detentores. E, mesmo nos lugares onde essa
medida é cumprida, como no Arroio Dilúvio,
o trabalho das equipes parece não dar conta do
ritmo constante da poluição urbana. O impacto
sobre a qualidade da água que será conduzida
ao rio Guaíba não parece ser motivo de preocupação
para o poder público. O que não é
visto pelas pessoas, pois corre no subterrâneo,
parece igualmente não ser sentido, pelo menos não
em curto prazo. Os prejuízos com o meio-ambiente,
pelos motivos já descritos, são um problema
preterido, visto que nem mesmo a coleta e tratamento de
esgoto possuem cobertura adequada. Quando falta o básico,
é difícil exigir medidas mais avançadas.
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