|
4Já é uma constante: nos
últimos anos, nos meses do verão, a água consumida pela
população de Porto Alegre tem apresentado cor, gosto e
cheiro incomuns – algo ruim para um bem que sempre
conhecemos como incolor e inodoro. O que mais incomoda,
contudo, é que se medidas não forem tomadas com urgência,
esse problema pode ter vindo para ficar.
A explicação para o fenômeno está na eutrofização do lago
Guaíba – que abastece as torneiras da Capital gaúcha –, o
que acarreta o aumento desenfreado de fitoplâncton (algas)
na água, alterando cor e sabor.
“Com a eutrofização – que é o aumento da matéria orgânica
e da decomposição da mesma –, ocorre o aquecimento das
águas e redução do seu teor de oxigênio, com eliminação
dos seres autotróficos [seres que produzem seu próprio
alimento a partir de produtos minerais simples] e
proliferação de seres heterotróficos anaeróbios [seres que
não sintetizam o próprio alimento e, por isso, se
alimentam de outros seres], como coliformes fecais”,
explica Marco Bueno, professor de Biologia do Unificado e
do Colégio Leonardo da Vinci.
A proliferação das algas pode ocorrer por diversos
motivos; o lançamento de esgotos, resíduos industriais,
fertilizantes agrícolas e a erosão são fatores que
contribuem. Não bastasse isso, a diminuição das chuvas no
verão acaba tornando o lago Guaíba um ambiente ainda mais
propício para o aumento da população de microorganismos.
“No momento em que a precipitação pluviométrica diminui,
aquela turbidez, aquele material em suspensão sedimenta
[vai para o fundo das águas do Guaíba], o que confere uma
boa transparência à água, oferecendo condições favoráveis
para o desenvolvimento das algas”, explana Iara Morandi,
diretora da Divisão de Pesquisa do Departamento Municipal
de Água e Esgotos (Dmae).
Conseqüências
A floração dessas algas pode ser nociva ao ser humano.
“Algumas espécies produzem toxinas que podem ser
acumuladas na cadeia alimentar e causar distúrbios
gastrointestinais e neurológicos em humanos e outros
animais superiores”, explica o professor Marco. Além
disso, o simples contato com a água pode causar doenças na
pele, como dermatites.
Quem também sofre são os animais marinhos: “Os peixes e
invertebrados, especialmente os cultivados, acabam
sofrendo intoxicação, dano ou oclusão do sistema
respiratório das brânquias ou outros meios”, pondera o
professor.
Ele alerta ainda para a bioacumulação das toxinas nos
animais marinhos, que pode atingir humanos. “Bioacumulação
é o nome genérico do processo de captação e retenção de
uma substância (contaminante) por um organismo a partir de
qualquer fonte (água, sedimento, outro organismo), via
qualquer rota (dieta, pele). Os invertebrados têm uma
capacidade particularmente alta de concentrar toxinas. A
pessoa que ingere algumas dessas algas não sofre nada, mas
aquela que ingere vários animais marinhos que tenham se
alimentado dessas algas pode vir a ter os problemas
mencionados”, conclui.
Em função disso tudo, o crescimento excessivo do
fitoplâncton recebe atenção especial do Dmae. “Existe todo
um procedimento da legislação de como o responsável pelo
sistema de abastecimento deve atuar, e é assim que o Dmae
faz”, explica Iara, enfatizando que o órgão monitora o
Guaíba e seus afluentes desde a década de 1970. A diretora
diz que essa proliferação de algas é bastante comum no
país, e que a central de tratamento do Dmae avançou muito
em termos tecnológicos para diminuir os efeitos do
fenômeno. Iara Morandi garante que, apesar dos
inconvenientes, a água que sai das torneiras da Capital é
própria para o consumo.
Medidas
Entretanto, as medidas tomadas pelo Dmae resolvem somente
uma parte do problema. Se por um lado a água sai potável
da torneira, por outro existe a necessidade de se tomarem
medidas preventivas, que evitem que o fenômeno prossiga
indefinidamente.
Para o engenheiro agrônomo e ambientalista Sebastião
Pinheiro, o problema do despejo de esgotos ainda não foi
resolvido por falta de vontade política. E ele diz isso
sem meias-palavras.
“O saneamento de esgotos nunca neste país foi considerado
como questão de saúde. O maluco do general Geisel
considerava que esgoto é questão ambiental, como se alguém
pudesse nascer e viver sem produzir fezes. O Banco Mundial
nunca priorizou créditos para saneamento, pois isso cria
saúde e dificulta a política de venda de medicamentos dos
países da União Européia. Além disso, foi induzido nos
prefeitos que enterrar canos de esgoto era obra que não se
via”, aponta o ambientalista.
A situação de vida da população brasileira também influi:
“Quando uma população não tem sentido de cidadania, é
espoliada, fica com prioridades essenciais cada vez mais
graves, tratar esgotos passa a ser algo supérfluo”,
comenta Pinheiro.
Em suma, refletir sobre a questão dos esgotos, trabalhando
com a idéia de que se trata de algo imprescindível à saúde
da população é o ponto-chave. Para finalizar, Sebastião
Pinheiro sugere que se façam eventos para debater o
problema: “Minha sugestão é que os estudantes de
jornalismo façam um seminário sobre a ‘Economia dos
Esgotos na Saúde Pública e Privada’ ou ‘Por que o Banco
Mundial é canibal?’ ”, encerra.< |