Revista OCA on-line # Dezembro de 2007
Proliferação de algas no Guaíba
Falta de vontade política impede a resolução do problema
Marcio Dolzan

4Já é uma constante: nos últimos anos, nos meses do verão, a água consumida pela população de Porto Alegre tem apresentado cor, gosto e cheiro incomuns – algo ruim para um bem que sempre conhecemos como incolor e inodoro. O que mais incomoda, contudo, é que se medidas não forem tomadas com urgência, esse problema pode ter vindo para ficar.

A explicação para o fenômeno está na eutrofização do lago Guaíba – que abastece as torneiras da Capital gaúcha –, o que acarreta o aumento desenfreado de fitoplâncton (algas) na água, alterando cor e sabor.

“Com a eutrofização – que é o aumento da matéria orgânica e da decomposição da mesma –, ocorre o aquecimento das águas e redução do seu teor de oxigênio, com eliminação dos seres autotróficos [seres que produzem seu próprio alimento a partir de produtos minerais simples] e proliferação de seres heterotróficos anaeróbios [seres que não sintetizam o próprio alimento e, por isso, se alimentam de outros seres], como coliformes fecais”, explica Marco Bueno, professor de Biologia do Unificado e do Colégio Leonardo da Vinci.

A proliferação das algas pode ocorrer por diversos motivos; o lançamento de esgotos, resíduos industriais, fertilizantes agrícolas e a erosão são fatores que contribuem. Não bastasse isso, a diminuição das chuvas no verão acaba tornando o lago Guaíba um ambiente ainda mais propício para o aumento da população de microorganismos.

“No momento em que a precipitação pluviométrica diminui, aquela turbidez, aquele material em suspensão sedimenta [vai para o fundo das águas do Guaíba], o que confere uma boa transparência à água, oferecendo condições favoráveis para o desenvolvimento das algas”, explana Iara Morandi, diretora da Divisão de Pesquisa do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae).

Conseqüências
A floração dessas algas pode ser nociva ao ser humano. “Algumas espécies produzem toxinas que podem ser acumuladas na cadeia alimentar e causar distúrbios gastrointestinais e neurológicos em humanos e outros animais superiores”, explica o professor Marco. Além disso, o simples contato com a água pode causar doenças na pele, como dermatites.

Quem também sofre são os animais marinhos: “Os peixes e invertebrados, especialmente os cultivados, acabam sofrendo intoxicação, dano ou oclusão do sistema respiratório das brânquias ou outros meios”, pondera o professor.

Ele alerta ainda para a bioacumulação das toxinas nos animais marinhos, que pode atingir humanos. “Bioacumulação é o nome genérico do processo de captação e retenção de uma substância (contaminante) por um organismo a partir de qualquer fonte (água, sedimento, outro organismo), via qualquer rota (dieta, pele). Os invertebrados têm uma capacidade particularmente alta de concentrar toxinas. A pessoa que ingere algumas dessas algas não sofre nada, mas aquela que ingere vários animais marinhos que tenham se alimentado dessas algas pode vir a ter os problemas mencionados”, conclui.

Em função disso tudo, o crescimento excessivo do fitoplâncton recebe atenção especial do Dmae. “Existe todo um procedimento da legislação de como o responsável pelo sistema de abastecimento deve atuar, e é assim que o Dmae faz”, explica Iara, enfatizando que o órgão monitora o Guaíba e seus afluentes desde a década de 1970. A diretora diz que essa proliferação de algas é bastante comum no país, e que a central de tratamento do Dmae avançou muito em termos tecnológicos para diminuir os efeitos do fenômeno. Iara Morandi garante que, apesar dos inconvenientes, a água que sai das torneiras da Capital é própria para o consumo.

Medidas
Entretanto, as medidas tomadas pelo Dmae resolvem somente uma parte do problema. Se por um lado a água sai potável da torneira, por outro existe a necessidade de se tomarem medidas preventivas, que evitem que o fenômeno prossiga indefinidamente.

Para o engenheiro agrônomo e ambientalista Sebastião Pinheiro, o problema do despejo de esgotos ainda não foi resolvido por falta de vontade política. E ele diz isso sem meias-palavras.

“O saneamento de esgotos nunca neste país foi considerado como questão de saúde. O maluco do general Geisel considerava que esgoto é questão ambiental, como se alguém pudesse nascer e viver sem produzir fezes. O Banco Mundial nunca priorizou créditos para saneamento, pois isso cria saúde e dificulta a política de venda de medicamentos dos países da União Européia. Além disso, foi induzido nos prefeitos que enterrar canos de esgoto era obra que não se via”, aponta o ambientalista.

A situação de vida da população brasileira também influi: “Quando uma população não tem sentido de cidadania, é espoliada, fica com prioridades essenciais cada vez mais graves, tratar esgotos passa a ser algo supérfluo”, comenta Pinheiro.

Em suma, refletir sobre a questão dos esgotos, trabalhando com a idéia de que se trata de algo imprescindível à saúde da população é o ponto-chave. Para finalizar, Sebastião Pinheiro sugere que se façam eventos para debater o problema: “Minha sugestão é que os estudantes de jornalismo façam um seminário sobre a ‘Economia dos Esgotos na Saúde Pública e Privada’ ou ‘Por que o Banco Mundial é canibal?’ ”, encerra.<

 


UNIVERDIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL - FABICO
Projeto desenvolvido pelos alunos da disciplina Jornalismo Ambiental,
da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação

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