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Um olhar sobre o Arroio
Dilúvio |
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Ana Carolina Farias |

As águas que anualmente recebem 50 mil metros cúbicos de
esgoto e lixo já fizeram parte de um ecossistema saudável / Ana
C. Farias |
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4Fica difícil imaginar essa
realidade deparando-se com o atual cenário do Arroio Dilúvio,
mas até por volta de 1950, quando as obras de sua retificação e
canalização foram iniciadas, o arroio mantinha a fauna e a flora
original característica da cidade. Segundo Eduardo Forneck,
professor da Faculdade de Biologia da UFRGS, há um mosaico
natural nos morros de Porto Alegre. Esse mosaico é a mistura de
campos, no topo, e matas, nas encostas dos morros onde ficam as
nascentes do Arroio Dilúvio.
Na porção média
do rio, intermediária entre a foz e a nascente, havia banhados e
matas ciliares, e na porção final do rio, perto do Guaíba,
banhados e matas brejosas que foram perdidas ao longo da
urbanização de Porto Alegre. Historicamente, o rio já vinha
sofrendo uma série de comprometimentos ambientais, como os
assentamentos desorganizados próximos ao rio e o esgoto não
tratado da cidade, antes mesmo da retificação e canalização de
suas águas. No entanto, foi com as obras para adequar o rio ao
desenvolvimento urbano – e minimizar os problemas de alagamento
– que o maior impacto ambiental ocorreu.“Um rio de leito
tortuoso tem um padrão de retirada de sedimentos de uma margem e
deposição de sedimentos em outra margem. O rio troca sedimentos,
materiais químicos e físicos com as matas ciliares e ambientes
ribeirinhos. Ao tornar reto o corpo principal do rio,
compromete-se todo o processo de sedimentação e erosão natural.
Logo, o assoreamento do rio será mais rápido. Primeiro porque
sem os locais naturais de deposição e retirada de sedimentos,
ele fará isso ao longo de todo o leito. Segundo porque sem a
cobertura vegetal, quando chove tudo é escoado para o rio –
lixo, detritos, sedimentos”, explica o professor Eduardo Forneck.
Antes a mata barrava esses elementos, agora, somado ao problema
da impermeabilização do solo, esse processo foi agravado.
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Situação é calamitosa em determinados trechos / Ana C. Farias |
8Por
isso, o DEP - Departamento de Esgotos Pluviais necessita fazer
dragagens periódicas no Arroio. “Se a dragagem não for feita, o
rio transborda”, afirma Cristina Bernardes, coordenadora de
Educação Ambiental do DEP. Segundo ela, “o arroio já atingiu
quatro metros de profundidade, mas hoje fica em torno de dois
metros no máximo, em alguns pontos. |
Com a pavimentação e sem a
vegetação ciliar vemos aquelas ilhas que se formam ao longo do
Arroio, que nada mais é que o resultado desse assoreamento”.
Ultimamente, um fato tem chamado a atenção dos passantes da
Avenida Ipiranga – o aparecimento de garças, cágados e até
peixes no Arroio. Porém, esse episódio não anima os
ambientalistas. “O Dilúvio nunca teve nenhuma obra visando a
melhoria da qualidade ambiental. Não há investimentos em
saneamento, tratamento de esgoto, recuperação de mata ciliar,
banhado. Sem recuperar os ambientes naturais, não há melhoria na
qualidade da água”, diz o professor Eduardo Forneck. “Existe
classificação da qualidade da água: classe especial, classe 1,
2, 3 e 4. Quanto maior o número, pior a água. A água do Dilúvio
está tão poluída que não tem mais classificação”, explica
Cristina Bernardes. |
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8Segundo
o professor, esse “fenômeno” ocorre mais próximo de sua foz,
onde há o lago Guaíba, que é menos poluído. Às vezes, a água do
Guaíba entra no Dilúvio, um processo inverso, mas que acaba por
diluir a poluição do arroio. |
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As
espécies vistas são chamadas de generalistas – são muito
resistentes, portanto, suportam essa grande degradação ambiental
e mantêm-se apesar da oferta mínima de plantas e outros
nutrientes. Nem de longe indicam melhoria na água. “Quando se
quer saber a qualidade ambiental, se pega espécies mais
sensíveis como bioindicadores, e dessas não resta nenhuma. Mesmo
essas espécies que vemos hoje, não se sabe até quando
resistirão. Com certeza estão contaminadas por se alimentarem de
plantas e peixes do Dilúvio”, explica ele.
Hoje, o que há
em projetos da prefeitura são apenas medidas paliativas – como a
dragagem, por exemplo - para evitar o caos, ou seja, o
transbordamento do rio, motivo principal do projeto de
retificação e canalização. Estima-se que 1/3 da população de
Porto Alegre vive sobre a bacia do Dilúvio. Consequentemente,
onde há maior densidade é onde o rio é mais comprometido –
basicamente pela perda de ecossistemas naturais. Não há como
recuperar isso. Esses ecossistemas só são encontrados e
preservados em locais isolados, em algumas das nascentes, como
nas que se localizam no Morro Santana, Morro da Polícia, Morro
da Companhia, nas nascentes próximas ao campus do vale da UFRGS
e na do Parque Saint’Hillaire em Viamão. Esta nascente, embora
receba esgoto não tratado, ainda tem mata ciliar, fauna e flora
nativas.
Já houve
pretensão da prefeitura de transformar esses morros em parques e
unidades de conservação, mas esse projeto estacionou. Há outro
projeto da Smam – Secretaria Municipal do Meio Ambiente - que
consiste em plantar mata nativa ao longo do Arroio Dilúvio, para
assim proporcionar ilhas de frescor na cidade, aumentando a
qualidade do clima e cedendo um espaço agradável para a
população, mas esse projeto também anda a passos lentos.
Os moradores que
convivem com o retrato do Arroio Dilúvio conhecem bem esse
descaso. Neli Gonçalves, 57 anos, professora, mora no Edifício
Palácio Ipiranga, há 23 anos. Bem em frente ao Arroio, ela
observa a camada de espuma que se forma principalmente às
segundas-feiras, vinda de grande parte da lavagem de automóveis
das inúmeras lojas que ficam na Avenida Ipiranga. “Há também
garrafas, vasilhames e sacolas plásticas, brinquedos, pedaços de
isopor e panos boiando. Já vi até sofá e restos de um porco”,
comenta indignada. Ela costuma caminhar pelas laterais do
Arroio, principalmente quando as árvores começam a florir, mas
há dias em que o mau cheiro vindo da água é insuportável. “Às
vezes, vejo garças e outros pássaros sobrevoando o Dilúvio,
geralmente onde há o acúmulo de terra. Gostaria de um dia ver
esse arroio recuperado. Com certeza seria um cartão postal para
a cidade, uma alegria para os olhos de milhares de moradores e
um exemplo de preocupação do governo público com a ecologia”
afirma.
Enquanto a
questão ambiental não for aceita como importante pelos
administradores, o máximo que será feito são medidas para
minimizar a situação de degradação em locais isolados como nos
morros das nascentes, que são preservados por ONG’s e parcerias
com universidades como a UFRGS. Essas entidades lutam não só
contra o descaso das autoridades, como a falta de
conscientização e mobilização da sociedade em geral, e também
contra empresários sedentos por construir fábricas, shoppings e
condomínios nesses locais. < |
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