Revista OCA on-line # Janeiro de 2008
Um olhar sobre o Arroio Dilúvio
Ana Carolina Farias

As águas que anualmente recebem 50 mil metros cúbicos de esgoto e lixo já fizeram parte de um ecossistema saudável / Ana C. Farias

4Fica difícil imaginar essa realidade deparando-se com o atual cenário do Arroio Dilúvio, mas até por volta de 1950, quando as obras de sua retificação e canalização foram iniciadas, o arroio mantinha a fauna e a flora original característica da cidade. Segundo Eduardo Forneck, professor da Faculdade de Biologia da UFRGS, há um mosaico natural nos morros de Porto Alegre. Esse mosaico é a mistura de campos, no topo, e matas, nas encostas dos morros onde ficam as nascentes do Arroio Dilúvio.

Na porção média do rio, intermediária entre a foz e a nascente, havia banhados e matas ciliares, e na porção final do rio, perto do Guaíba, banhados e matas brejosas que foram perdidas ao longo da urbanização de Porto Alegre. Historicamente, o rio já vinha sofrendo uma série de comprometimentos ambientais, como os assentamentos desorganizados próximos ao rio e o esgoto não tratado da cidade, antes mesmo da retificação e canalização de suas águas. No entanto, foi com as obras para adequar o rio ao desenvolvimento urbano – e minimizar os problemas de alagamento – que o maior impacto ambiental ocorreu.“Um rio de leito tortuoso tem um padrão de retirada de sedimentos de uma margem e deposição de sedimentos em outra margem. O rio troca sedimentos, materiais químicos e físicos com as matas ciliares e ambientes ribeirinhos. Ao tornar reto o corpo principal do rio, compromete-se todo o processo de sedimentação e erosão natural. Logo, o assoreamento do rio será mais rápido. Primeiro porque sem os locais naturais de deposição e retirada de sedimentos, ele fará isso ao longo de todo o leito. Segundo porque sem a cobertura vegetal, quando chove tudo é escoado para o rio – lixo, detritos, sedimentos”, explica o professor Eduardo Forneck. Antes a mata barrava esses elementos, agora, somado ao problema da impermeabilização do solo, esse processo foi agravado.


Situação é calamitosa em determinados trechos / Ana C. Farias
8Por isso, o DEP - Departamento de Esgotos Pluviais necessita fazer dragagens periódicas no Arroio. “Se a dragagem não for feita, o rio transborda”, afirma Cristina Bernardes, coordenadora de Educação Ambiental do DEP. Segundo ela, “o arroio já atingiu quatro metros de profundidade, mas hoje fica em torno de dois metros no máximo, em alguns pontos.
Com a pavimentação e sem a vegetação ciliar vemos aquelas ilhas que se formam ao longo do Arroio, que nada mais é que o resultado desse assoreamento”.

Ultimamente, um fato tem chamado a atenção dos passantes da Avenida Ipiranga – o aparecimento de garças, cágados e até peixes no Arroio. Porém, esse episódio não anima os ambientalistas. “O Dilúvio nunca teve nenhuma obra visando a melhoria da qualidade ambiental. Não há investimentos em saneamento, tratamento de esgoto, recuperação de mata ciliar, banhado. Sem recuperar os ambientes naturais, não há melhoria na qualidade da água”, diz o professor Eduardo Forneck. “Existe classificação da qualidade da água: classe especial, classe 1, 2, 3 e 4. Quanto maior o número, pior a água. A água do Dilúvio está tão poluída que não tem mais classificação”, explica Cristina Bernardes.
8Segundo o professor, esse “fenômeno” ocorre mais próximo de sua foz, onde há o lago Guaíba, que é menos poluído. Às vezes, a água do Guaíba entra no Dilúvio, um processo inverso, mas que acaba por diluir a poluição do arroio.

 As espécies vistas são chamadas de generalistas – são muito resistentes, portanto, suportam essa grande degradação ambiental e mantêm-se apesar da oferta mínima de plantas e outros nutrientes. Nem de longe indicam melhoria na água. “Quando se quer saber a qualidade ambiental, se pega espécies mais sensíveis como bioindicadores, e dessas não resta nenhuma. Mesmo essas espécies que vemos hoje, não se sabe até quando resistirão. Com certeza estão contaminadas por se alimentarem de plantas e peixes do Dilúvio”, explica ele.

Hoje, o que há em projetos da prefeitura são apenas medidas paliativas – como a dragagem, por exemplo - para evitar o caos, ou seja, o transbordamento do rio, motivo principal do projeto de retificação e canalização. Estima-se que 1/3 da população de Porto Alegre vive sobre a bacia do Dilúvio. Consequentemente, onde há maior densidade é onde o rio é mais comprometido – basicamente pela perda de ecossistemas naturais. Não há como recuperar isso. Esses ecossistemas só são encontrados e preservados em locais isolados, em algumas das nascentes, como nas que se localizam no Morro Santana, Morro da Polícia, Morro da Companhia, nas nascentes próximas ao campus do vale da UFRGS e na do Parque Saint’Hillaire em Viamão. Esta nascente, embora receba esgoto não tratado, ainda tem mata ciliar, fauna e flora nativas.

Já houve pretensão da prefeitura de transformar esses morros em parques e unidades de conservação, mas esse projeto estacionou. Há outro projeto da Smam – Secretaria Municipal do Meio Ambiente - que consiste em plantar mata nativa ao longo do Arroio Dilúvio, para assim proporcionar ilhas de frescor na cidade, aumentando a qualidade do clima e cedendo um espaço agradável para a população, mas esse projeto também anda a passos lentos.

Os moradores que convivem com o retrato do Arroio Dilúvio conhecem bem esse descaso. Neli Gonçalves, 57 anos, professora, mora no Edifício Palácio Ipiranga, há 23 anos. Bem em frente ao Arroio, ela observa a camada de espuma que se forma principalmente às segundas-feiras, vinda de grande parte da lavagem de automóveis das inúmeras lojas que ficam na Avenida Ipiranga. “Há também garrafas, vasilhames e sacolas plásticas, brinquedos, pedaços de isopor e panos boiando. Já vi até sofá e restos de um porco”, comenta indignada. Ela costuma caminhar pelas laterais do Arroio, principalmente quando as árvores começam a florir, mas há dias em que o mau cheiro vindo da água é insuportável. “Às vezes, vejo garças e outros pássaros sobrevoando o Dilúvio, geralmente onde há o acúmulo de terra. Gostaria de um dia ver esse arroio recuperado. Com certeza seria um cartão postal para a cidade, uma alegria para os olhos de milhares de moradores e um exemplo de preocupação do governo público com a ecologia” afirma.

Enquanto a questão ambiental não for aceita como importante pelos administradores, o máximo que será feito são medidas para minimizar a situação de degradação em locais isolados como nos morros das nascentes, que são preservados por ONG’s e parcerias com universidades como a UFRGS. Essas entidades lutam não só contra o descaso das autoridades, como a falta de conscientização e mobilização da sociedade em geral, e também contra empresários sedentos por construir fábricas, shoppings e condomínios nesses locais. <

 


UNIVERDIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL - FABICO
Projeto desenvolvido pelos alunos de Jornalismo Ambiental da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação

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