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4Após cinco anos de problemas
relacionados à falta de lixeiras nas ruas da Capital, já que a
última instalação de cestos foi realizada em 2002, a população
pode comemorar. Em uma tentativa de contornar a situação, a
prefeitura da cidade realizou, em agosto, um pregão eletrônico
para selecionar a empresa responsável por desenvolver o projeto
de colocação de novas lixeiras. Oito mil novas peças serão
fixadas, a partir de dezembro, nas vias públicas com o objetivo
de reduzir o volume de resíduos deixados no chão.
- Da última vez,
876 cestos foram instalados em Porto Alegre. Eles foram, e
serão, novamente, distribuídos de acordo com o fluxo de pessoas.
Estamos passando agora por um processo interno de seleção das
regiões que terão prioridade na instalação das lixeiras, afirma
Adelino Lopes Neto, Supervisor Operacional do Departamento
Municipal de Limpeza Urbana (DMLU).
Os novos
recipientes serão produzidos com um material mais resistente e
terão um formato adaptado para evitar lesões aos transeuntes – o
modelo não tem quinas. Além disso, as lixeiras serão feitas de
aço galvanizado e terão pintura automotiva, materiais mais
resistentes à ação do tempo e do vandalismo. O processo de
instalação deverá ocorrer em partes. A cada 45 dias, uma remessa
dos cestos será implantada.
O lixo
proveniente das bocas de lobo e arroios da cidade é recolhido
pelo Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) e reaproveitado. O
trabalho do DEP conta com cinco equipes de profissionais cujo
papel é limpar e evitar que o lixo jogado nas vias públicas
fique preso e bloqueie os canais de escoamento da águas das
chuvas. Segundo Rogério Faccio, auxiliar técnico do DEP, os
principais causadores do entupimento do esgoto são as garrafas
PET e as sacolas plásticas, materiais mais difíceis de serem
removidos.
A redução do problema passa pela instalação de recipientes
adequados ao descarte do lixo e por sua reciclagem e posterior
reutilização, mas a solução depende da conscientização da
sociedade.
O Professor e
Coordenador de Gestão Ambiental da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS), Darci Campani, afirma que o consumo
excessivo é vinculado à idéia do descartável.
- Muitas vezes
compramos produtos para serem utilizados uma única vez e se
transformarem rapidamente em resíduo. Assim, se consome o dobro
de matéria-prima, o dobro de energia e se gera o dobro de
resíduos necessários, ressalta o professor.
Isso significa
que, para uma população que cresce constantemente e cujos
hábitos de consumo aumentam além do necessário, não há natureza
que absorva o impacto. Ou seja, o atual modo de vida se tornou
insustentável.
As conseqüências podem ser percebidas na vida dos seres humanos
e de outras espécies. O professor salienta que muitas formas de
vida foram extintas e outras tantas podem deixar de existir
dentro de pouco tempo, se não houver conscientização da
sociedade e se os padrões de consumo não forem modificados.
- Não podemos
atuar apenas na esperança de que seremos a última geração,
alerta. De acordo com Campani, as pessoas devem optar
individualmente pelo consumo consciente, evitando o uso de
artigos descartáveis.
- A sensação de
que o produto de vida útil curta é mais barato nem sempre
corresponde à verdade. Durando menos, logo outro item será
comprado para substituí-lo, diz o professor.
Diversos
projetos têm sido organizados em busca dessa conscientização
coletiva. Escolas, empresas, ONG’s e governos têm unido forças
para fazer com que a relação entre a intensa produção de lixo e
seu destino seja controlada e organizada da melhor forma
possível.
Uma dessas
iniciativas é a realização do Dia Interamericano de Limpeza e
Cidadania. O projeto, promovido pela ONG da Associação
Brasileira de Engenharia Sanitária (Abes), busca desenvolver,
com profissionais, empresas e população, a idéia de que é
necessário reduzir a geração de resíduos.
- Com o evento,
não buscamos apenas alertar a sociedade para a importância da
reciclagem, mas também para a necessidade de redução da produção
de lixo, afirma Jussara Pires, coordenadora da Abes em Porto
Alegre.
QUESTÃO DE SAÚDE
8Os problemas relacionados ao
excesso de lixo nas ruas das cidades não se limitam apenas ao
mal-estar e à poluição. Segundo a Vigilância Sanitária de Porto
Alegre, a contaminação das águas e o contato com resíduos já
causaram diversos surtos de doenças na população. A mais
conhecida delas é a leptospirose, principalmente por se tratar
de uma doença que pode levar à morte.
A bactéria
Leptospira, causadora da doença, é encontrada na urina de
roedores e outros mamíferos infectados. O principal reservatório
do microorganismo no nosso meio é o rattus norvegicus, as
ratazanas de esgoto, que eliminam a bactéria no ambiente durante
toda a vida, sem adoecer. A transmissão acontece por contato com
a pele, quando há exposição do paciente aos fatores de risco
como água ou lama de enchente, esgoto ou lixo. Os principais
sintomas são febre alta, dores musculares, dor de cabeça,
fraqueza e, nos casos mais graves, pele e olhos amarelos.
Os resíduos
sólidos deixados nas vias públicas tendem a se concentrar nas
bocas de lobo arrastados pela chuva. O entupimento dos bueiros
tem se tornado um dos problemas que atinge as grandes cidades.
Além de causar transtornos e destruição por onde passam, as
enchentes também contribuem para a proliferação da doença que,
em um surto ocorrido em 2001 em Porto Alegre, matou dez pessoas
e contaminou quase cem.
A Vigilância
Sanitária de cada cidade desempenha um papel fundamental diante
desses casos. Como a leptospirose é uma doença de notificação
obrigatória no Brasil, é possível monitorar os casos e manter um
controle sobre a incidência. Ao serem confirmados focos da
doença, a Vigilância Sanitária aciona outros órgãos, como o
Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE), o DEP e o DMLU,
para que as medidas necessárias sejam tomadas. A desratização e
uma limpeza do local são as soluções a curto prazo. Após isso,
são desenvolvidas campanhas esclarecedoras para que a população
da região se conscientize da gravidade da contaminação e dos
meios de prevenção que podem ser utilizados.
Os maiores
surtos ocorrem, geralmente, em regiões nas quais a população
trabalha diretamente com o lixo. Em Porto Alegre, a maior
concentração dos casos ocorre no bairro São João, em decorrência
da grande concentração de catadores no local, e nas ilhas do
Guaíba, onde, além do contato com o lixo, há o contato direto
com lama e água contaminadas.
Esse panorama indica a necessidade de esclarecimento da questão.
A população deve ser alertada sobre a situação, os moradores das
regiões de risco devem ter acesso à prevenção e, principalmente,
toda a sociedade, através das escolas, do seu local de trabalho,
da televisão, entre outros ambientes e meios, deve ser convocada
a uma reflexão conjunta sobre o que cada um deve fazer para
manter o lixo sob controle. < |