Revista OCA on-line # Dezembro de 2007
Muito além do papel de bala
O excesso de lixo em Porto Alegre causa transtornos à população
Gabriela Haas

4Após cinco anos de problemas relacionados à falta de lixeiras nas ruas da Capital, já que a última instalação de cestos foi realizada em 2002, a população pode comemorar. Em uma tentativa de contornar a situação, a prefeitura da cidade realizou, em agosto, um pregão eletrônico para selecionar a empresa responsável por desenvolver o projeto de colocação de novas lixeiras. Oito mil novas peças serão fixadas, a partir de dezembro, nas vias públicas com o objetivo de reduzir o volume de resíduos deixados no chão.

- Da última vez, 876 cestos foram instalados em Porto Alegre. Eles foram, e serão, novamente, distribuídos de acordo com o fluxo de pessoas. Estamos passando agora por um processo interno de seleção das regiões que terão prioridade na instalação das lixeiras, afirma Adelino Lopes Neto, Supervisor Operacional do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU).

Os novos recipientes serão produzidos com um material mais resistente e terão um formato adaptado para evitar lesões aos transeuntes – o modelo não tem quinas. Além disso, as lixeiras serão feitas de aço galvanizado e terão pintura automotiva, materiais mais resistentes à ação do tempo e do vandalismo. O processo de instalação deverá ocorrer em partes. A cada 45 dias, uma remessa dos cestos será implantada.

O lixo proveniente das bocas de lobo e arroios da cidade é recolhido pelo Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) e reaproveitado. O trabalho do DEP conta com cinco equipes de profissionais cujo papel é limpar e evitar que o lixo jogado nas vias públicas fique preso e bloqueie os canais de escoamento da águas das chuvas. Segundo Rogério Faccio, auxiliar técnico do DEP, os principais causadores do entupimento do esgoto são as garrafas PET e as sacolas plásticas, materiais mais difíceis de serem removidos.
A redução do problema passa pela instalação de recipientes adequados ao descarte do lixo e por sua reciclagem e posterior reutilização, mas a solução depende da conscientização da sociedade.

O Professor e Coordenador de Gestão Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Darci Campani, afirma que o consumo excessivo é vinculado à idéia do descartável.

- Muitas vezes compramos produtos para serem utilizados uma única vez e se transformarem rapidamente em resíduo. Assim, se consome o dobro de matéria-prima, o dobro de energia e se gera o dobro de resíduos necessários, ressalta o professor.

Isso significa que, para uma população que cresce constantemente e cujos hábitos de consumo aumentam além do necessário, não há natureza que absorva o impacto. Ou seja, o atual modo de vida se tornou insustentável.
As conseqüências podem ser percebidas na vida dos seres humanos e de outras espécies. O professor salienta que muitas formas de vida foram extintas e outras tantas podem deixar de existir dentro de pouco tempo, se não houver conscientização da sociedade e se os padrões de consumo não forem modificados.

- Não podemos atuar apenas na esperança de que seremos a última geração, alerta. De acordo com Campani, as pessoas devem optar individualmente pelo consumo consciente, evitando o uso de artigos descartáveis.

- A sensação de que o produto de vida útil curta é mais barato nem sempre corresponde à verdade. Durando menos, logo outro item será comprado para substituí-lo, diz o professor.

Diversos projetos têm sido organizados em busca dessa conscientização coletiva. Escolas, empresas, ONG’s e governos têm unido forças para fazer com que a relação entre a intensa produção de lixo e seu destino seja controlada e organizada da melhor forma possível.

Uma dessas iniciativas é a realização do Dia Interamericano de Limpeza e Cidadania. O projeto, promovido pela ONG da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária (Abes), busca desenvolver, com profissionais, empresas e população, a idéia de que é necessário reduzir a geração de resíduos.

- Com o evento, não buscamos apenas alertar a sociedade para a importância da reciclagem, mas também para a necessidade de redução da produção de lixo, afirma Jussara Pires, coordenadora da Abes em Porto Alegre.

QUESTÃO DE SAÚDE

8Os problemas relacionados ao excesso de lixo nas ruas das cidades não se limitam apenas ao mal-estar e à poluição. Segundo a Vigilância Sanitária de Porto Alegre, a contaminação das águas e o contato com resíduos já causaram diversos surtos de doenças na população. A mais conhecida delas é a leptospirose, principalmente por se tratar de uma doença que pode levar à morte.

A bactéria Leptospira, causadora da doença, é encontrada na urina de roedores e outros mamíferos infectados. O principal reservatório do microorganismo no nosso meio é o rattus norvegicus, as ratazanas de esgoto, que eliminam a bactéria no ambiente durante toda a vida, sem adoecer. A transmissão acontece por contato com a pele, quando há exposição do paciente aos fatores de risco como água ou lama de enchente, esgoto ou lixo. Os principais sintomas são febre alta, dores musculares, dor de cabeça, fraqueza e, nos casos mais graves, pele e olhos amarelos.

Os resíduos sólidos deixados nas vias públicas tendem a se concentrar nas bocas de lobo arrastados pela chuva. O entupimento dos bueiros tem se tornado um dos problemas que atinge as grandes cidades. Além de causar transtornos e destruição por onde passam, as enchentes também contribuem para a proliferação da doença que, em um surto ocorrido em 2001 em Porto Alegre, matou dez pessoas e contaminou quase cem.

A Vigilância Sanitária de cada cidade desempenha um papel fundamental diante desses casos. Como a leptospirose é uma doença de notificação obrigatória no Brasil, é possível monitorar os casos e manter um controle sobre a incidência. Ao serem confirmados focos da doença, a Vigilância Sanitária aciona outros órgãos, como o Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE), o DEP e o DMLU, para que as medidas necessárias sejam tomadas. A desratização e uma limpeza do local são as soluções a curto prazo. Após isso, são desenvolvidas campanhas esclarecedoras para que a população da região se conscientize da gravidade da contaminação e dos meios de prevenção que podem ser utilizados.

Os maiores surtos ocorrem, geralmente, em regiões nas quais a população trabalha diretamente com o lixo. Em Porto Alegre, a maior concentração dos casos ocorre no bairro São João, em decorrência da grande concentração de catadores no local, e nas ilhas do Guaíba, onde, além do contato com o lixo, há o contato direto com lama e água contaminadas.
Esse panorama indica a necessidade de esclarecimento da questão. A população deve ser alertada sobre a situação, os moradores das regiões de risco devem ter acesso à prevenção e, principalmente, toda a sociedade, através das escolas, do seu local de trabalho, da televisão, entre outros ambientes e meios, deve ser convocada a uma reflexão conjunta sobre o que cada um deve fazer para manter o lixo sob controle. <

 


UNIVERDIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL - FABICO
Projeto desenvolvido pelos alunos de Jornalismo Ambiental da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação

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