Revista OCA on-line # Dezembro de 2007
Porto Alegre de olho no óleo
Sob a luz da reciclagem, é possível vislumbrar alternativas ecológicas ao destino do óleo de cozinha
Helena Wöhl Coelho

4APorto Alegre entra para a lista das capitais que coletam óleo de fritura usado. Tramitando desde 2005, o Projeto de Reciclagem do Óleo de Fritura (PEOF) passou a vigorar em 11 de junho de 2007 através de parcerias estabelecidas entre o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) e empresas privadas de coleta previamente licenciadas pelo órgão.


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8Este serviço já era realizado pelas coletoras no setor privado: “grandes empreendimentos, como cadeias de hotéis e restaurantes, têm obrigação legal de separar o óleo que utilizam”, afirma a responsável pela equipe de reaproveitamento da Unidade de Triagem e Compostagem (UTC/DMLU), a engenheira química Mariza Reis. “Agora, também a população será beneficiada”, complementa a engenheira. O óleo utilizado em casa, devidamente acondicionado em vidros ou garrafas PET, deve ser entregue em horário comercial em um dos 36 postos de coleta do município, de onde será encaminhado para reciclagem.

Nestes sete meses de existência, o projeto recolheu uma média de dois mil litros de óleo ao mês, o número de postos (originalmente 24) foi ampliado e o de coletoras deve passar de três (Oleoplan AS, Celgon Agroindustrial Ltda e Faros – Indústria de Farinha e Ossos Ltda) para quatro conveniadas. “O que ocorre é uma troca de serviços: as empresas que realizam a coleta não são remuneradas por isso, mas recebem o óleo como doação, que é então de propriedade do DMLU”, esclarece Mariza. A renda que estes litros geram para as coletoras é ainda pouco significativa se comparada à que estas obtêm da indústria de serviços. A perspectiva, no entanto, é otimista: segundo a engenheira, “em 2008, novos postos serão abertos e se espera fazer um trabalho de divulgação junto a condomínios e escolas, que têm apresentado interesse e procura crescentes. Com maior volume de coleta, a atividade se tornará mais atraente para as coletoras, que por sua vez se verão motivadas a patrocinar publicidade e programas de educação ambiental”.


Postos estão espalhados por toda a capital, e o DMLU promove blitz para informar a população / SECOM Prefeitura


O objetivo desta iniciativa é claramente ambiental. Ela surge como integrante do programa Pró-Dilúvio, criado em março de 2005 pela Prefeitura e que reúne uma série de medidas de saneamento e educação ambiental visando à recuperação do Arroio Dilúvio de Porto Alegre. “A maior parte da população descarregava o óleo de uso doméstico no encanamento sem saber que estava fazendo errado”, alega Mariza, “e mesmo quando realizava a separação, ele ficava sujeito à coleta clandestina nas calçadas, indo de qualquer forma parar no esgoto ou, ainda, sendo reutilizado”. Ao entrar em contato com a água, sendo menos denso, o óleo forma uma película sobre a mesma que entupirá e acumulará sólidos nas tubulações, dificultando a drenagem do esgoto e aumentando o custo de tratamento em 45%. Indo parar em rios e arroios, inibe a entrada de luz e a troca gasosa entre a água e a atmosfera, causando a mortandade da fauna aquática. Cada litro de óleo descartado no meio ambiente contamina potencialmente um milhão de litros de água, o que corresponde a 14 anos de consumo humano. Absorvido pelo solo, impermeabiliza-o originando enchentes. E, entrando em decomposição, libera gás metano, que além de causar mau cheiro, é o principal vilão do efeito estufa.


DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

8A reciclagem no Brasil é ainda um hábito em formação. Nos Indicadores de Desenvolvimento Sustentável 2004, do IBGE, o item Coleta seletiva de lixo mostra números incipientes: apenas 2% do lixo produzido no país é coletado seletivamente e apenas 6% das residências são atendidas por serviços de coleta seletiva, que existem somente em 8,2% dos municípios. A publicação, cuja primeira edição data de 2002, contém um total de 59 indicadores sobre a sustentabilidade do modelo de desenvolvimento brasileiro. Esta ação integra o conjunto de esforços internacionais liderados pela ONU, e intensificados desde a ECO 92, de consolidar indicadores internacionais compatíveis - nas dimensões ambiental, social, econômica e institucional - que permitem o acompanhamento do tema em escala mundial. No indicador Reciclagem, o Brasil aparece como recordista mundial de latas de alumínio (89 % em 2003) e registra 43% no reaproveitamento de papel, mas se tratam de índices isolados.
A reciclagem do óleo de cozinha no país tem atraído atenção crescente desde as discussões governamentais em torno do biodiesel. Os óleos vegetais, fontes renováveis e menos agressivas de energia, já são uma alternativa real ao combustível fóssil. Nosso país conta com uma grande diversidade de espécies vegetais oleaginosas das quais se podem extrair óleos para fins energéticos. Dentre estas espécies, existem as de ocorrência nativa (mamona), as de cultivo de ciclo curto (soja) e as de ciclo longo ou perene (dendê). Ainda assim, tendo o óleo de cozinha como matéria-prima, a ação é duplamente benéfica.

Segundo a Profa Dra Marisa Tsao, coordenadora do Instituto de Química La Salle, órgão de apoio da Uni La Salle que desenvolve prestação de serviços em análises químicas e pesquisa aplicada na área ambiental, o processo de obtenção do biodiesel a partir do óleo de cozinha “é teoricamente simples: utiliza-se o óleo, mais um álcool – metanol ou etanol - e um catalisador, que é uma base – hidróxido de sódio ou de potássio”. “O biodiesel, além de ser uma fonte renovável, é interessante por seu alto conteúdo energético”, afirma Marisa. “Ele tem maior rendimento que o álcool, podendo ser usado tanto em veículos leves, quanto de carga”, destaca. No entanto, para que este possa ser efetivamente usado em motores, “há uma série de parâmetros de qualidade que precisam ser atendidos”. Tem-se, desta forma, “uma produção simples, mas uma purificação bastante complexa, o que faz com que o produto final seja muito caro”, explica a professora. “Há diversas instituições no país, dentre elas a USP, dedicadas à pesquisa e ao desenvolvimento do biodiesel, mas não se trata ainda de um processo industrial e economicamente viável”. Uma alternativa caseira, sugere Marisa, é transformar o óleo usado em sabão, já mais facilmente degradável. “O procedimento é o mesmo, apenas em quantidades diferentes – o óleo, um ácido e uma base são aquecidos e, de acordo com as proporções, se terá um sabão mais ou menos líquido”.

Em Porto Alegre, as empresas encarregadas pelo DMLU têm dado diferentes fins ao óleo coletado: a Faros produz uma farinha-base para rações, a Oleoplan vem desenvolvendo o projeto biodiesel e a Celgon o utiliza para alimentar as caldeiras e também o revende para fábricas de sabão e de biodiesel. Outra opção é a produção de resina para tintas. A crescente participação dos porto-alegrenses vislumbra agora a criação de uma usina de biodiesel. O projeto, de autoria da Secretaria Municipal de Indústria e Comércio, encontra-se tramitando na prefeitura. <

   Sabão feito com óleo de cozinha

Ingredientes
2 litros de óleo de cozinha usado
350 g de soda cáustica em escama
350 ml de água

Modo de preparo
Dissolva a soda cáustica na água em uma vasilha reforçada (lata de tinta de 18l, por exemplo). Reserve.
Coloque o óleo, já coado, em um recipiente e leve ao fogo até aquecer (aprox. 60ºC). Apague o fogo, acrescente a soda dissolvida e mexa por 20 ou 30 min até engrossar. Despeje o conteúdo em fôrmas e aguarde a secagem.

IMPORTANTE: para evitar acidentes, use luvas e óculos de proteção ao dissolver a soda cáustica.

LEMBRE-SE: antes de usá-lo, deixe o sabão em descanso por alguns dias.

 


UNIVERDIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL - FABICO
Projeto desenvolvido pelos alunos de Jornalismo Ambiental da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação

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